HISTÓRICO
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Misericórdias:
O Magnífico Legado Luso
Dr. Henrique Seiji Ivamoto
Meio
milênio nos separa daquele distante ano de 1498. Portugal
amanhecera ensolarado no dia 15 de agosto, refrescado
pela brisa amena que soprava da península e que impulsionava
as caravelas dos seus filhos que deixavam o Tejo rumo
ao vasto e incógnito oceano. Na dinâmica e florescente
Lisboa, que ganhava relevo frente às demais metrópoles
européias, a movimentação de marítimos e mercadores era
intensa.
Os
nobres ocupavam seus assentos na Capela de Nossa Senhora
da Piedade "da terra solta", que Dom Dinis,
o Lavrador, fundara no século XIV, na Sé da metrópole.
Na praça e ruas adjacentes, a multidão se aglomerava aguardando
a chegada daquela que todos amavam e que era conhecida
com "Rainha dos Sofredores e Piedosa" . Dona
Leonor de Lencastre, regente do trono, chegou com o semblante
abatido, acompanhada do seu dedicado assistente e confessor,
o frei espanhol Miguel de Contreras, membro da Ordem da
Santíssima Trindade.
Em
cerimônia simples, com poucas falas, Dona Leonor instituiu
a Irmandade da Misericórdia, nomeando Frei Miguel seu
provedor. A Misericórdia assumiu a manutenção do Hospital
Real de Todos os Santos, nosocômico modelar, cuja construção
fora iniciada pelo seu falecido marido e que veio a abrigar
a Faculdade de Medicina de Lisboa, quando de sua criação.
Após a breve cerimônia, a " Rainha dos Sofredores"
deixou a capela aclamada por todos, particularmente pelos
artistas, pelos necessitados, que a tinham como protetora.
Retribuiu com seu olhar meigo e um sorriso abatido, mas
cordial e atencioso.
Epopéia
lusíada
Os
presentes testemunhavam o início de uma das mais significativas
obras filantrópicas que o mundo viria a conhecer, dádiva
da caridade lusa materializada pelas mãos de sua triste
e benemérita regente. Se a época constituiu um período
glorioso da epopéia lusíada, marcada pelos feitos heróicos
de seus intrépidos navegantes e cantada nos veros do seu
poeta maior, não menos relevante para a humanidade foi
o ato discreto e pouco conhecido da sofrida dama.
Leonor
de Lencastre, bisneta de Dom João I, fundador da Casa
de Avis, casara-se com apenas 12 anos de idade com seu
primo, herdeiro do trono. O enlace com o " Príncipe
Perfeito" era a concretização do sonho almejado por
todas as jovens da corte. Sua felicidade começou a se
dissipar quando o princípe assumiu o reinado como Dom
João II e deu início ao seu plano centralizador, saindo
em busca das terras e direitos da nobreza. Determinado
e insensível, eliminou aqueles que não cediam às suas
ambições, incluindo os duques de Bragança e de Viseu,
respectivamente, cunhado e irmão da Rainha. Em seguida,
esta sofreu sua perda maior, o único filho, vitimado por
queda acidental enquanto cavalgava.
O
vasto Novo Mundo
O
agressivo monarca rechaçou a bula papal Intercoetera,
cujo meridiano divisor favorecia a Espanha e assegurava
a Portugal nada além de terras submersas. Ameaçou seu
vizinho Felipe, o rei Católico, fazendo-o retroceder e
firmar, em 1494, na cidade espanhola de Tordesilhas, o
tratado conciliador, em que dividiam o mundo entre ambos.
Com a morte do não tão perfeito soberano, que perderá
o único descendente com direitos sucessórios reais, restou
ao seu cunhado, Dom Manuel, a herança de uma coroa poderosa
e direitos sobre um vasto território no Novo Mundo.
Inconsolada
com as trágicas perdas familiares, a outrora feliz princesa
passou a dedicar sua vida aos escritores, artistas, e,
principalmente, àqueles com quem se identificava na dor,
os sofredores de dores de todas as naturezas. Sua maior
obra foi a Irmandade da Misericórdia. Assistindo os sofredores
de dores físicas ou morais, os enfermos e os presos, os
órfãos e os pobres, as Santas Casas de Misericórdia assumiriam
muitas das obrigações sociais do Estado. Dom Manuel e
seus sucessores estimularam a criação de Misericórdias
que se espalharam por Portugal, Brasil, África, Índia,
Japão, Arábia, Pérsia, Indochina, China e Indonésia.
No
Brasil, a obra teve início com Braz Cubas, neto do provedor
de congênere do Porto, que, em 1543, inaugurou a Santa
Casa de Misericórdia de Santos. Logo surgiram a da Bahia,
de Tomé de Sousa; a do Espírito Santo e a do Rio de Janeiro,
de José de Anchieta, a de Olinda, de João Pais Barreto,
a de Sâo Paulo, e, em seguida, centenas de outras, servindo
todas as regiões, sendo responsáveis pelo atendimento
da maioria da população carente do país.
Dr.
Henrique Seiji Ivamoto é neurocirurgião, chefe
do Serviço de Neurocirurgia da Santa Casa de Misericórdia
de Santos e membro fundador da Sociedade Brasileira de
História da Medicina e editor da Revista Acta Medica
Misericordiae.